Walter Benjamin e a obra de arte

Walter Benjamin

em seu influente ensaio "A Obra de Arte na Era de sua Reprodutibilidade Técnica" (publicado em 1936), analisa as profundas transformações que as novas tecnologias de reprodução (especialmente a fotografia e o cinema) trouxeram para a arte, sua função social e nossa percepção dela.

Para Benjamin, a reprodutibilidade técnica é um fenômeno que altera radicalmente o status da obra de arte e, consequentemente, a própria noção de arte e sua relação com a sociedade.

O Impacto da Reprodutibilidade Técnica na Obra de Arte

As principais ideias de Benjamin sobre a reprodutibilidade técnica giram em torno do conceito de "aura" e de suas consequências políticas e sociais.

1. O Conceito de Aura

·        Definição: A aura é o que Benjamin define como "a aparição única de uma coisa distante, por mais próxima que ela esteja". Ela é a autenticidade e a unicidade da obra de arte original, seu "aqui e agora" irrepetível, sua história material e espiritual (quem a criou, onde esteve, seu processo de deterioração, sua inserção em um ritual ou tradição). A aura confere à obra um caráter de culto, quase mágico, e um valor de veneração.

·        Fundamento Ritualístico: Historicamente, a aura da obra de arte estava ligada ao seu valor de culto. Muitas das primeiras obras de arte (pinturas rupestres, estátuas religiosas) tinham uma função ritualística, mágica ou religiosa. Sua unicidade e originalidade as tornavam sagradas e inacessíveis, possuindo um poder intrínseco que emanava de seu "aqui e agora".

2. A Destruição da Aura pela Reprodutibilidade Técnica

·        Com o surgimento de técnicas como a fotografia e o cinema, a obra de arte pode ser reproduzida em massa, de forma fácil e rápida, perdendo seu caráter único. Uma cópia fotográfica de uma pintura, por exemplo, pode ser vista em qualquer lugar, a qualquer momento, sem que se precise estar diante do original.

·        Benjamin argumenta que essa reprodutibilidade técnica leva à perda ou ao "declínio da aura". A cópia não possui o "aqui e agora" do original; ela é desvinculada de seu contexto histórico e ritualístico. A reprodução em massa profana a obra, tirando-a de seu nicho tradicional e multiplicando sua presença.

3. As Consequências da Perda da Aura: Do Valor de Culto ao Valor de Exposição

Benjamin não vê o declínio da aura como algo puramente negativo; ele o vê como um fenômeno ambivalente, com potenciais revolucionários.

·        Fim do Valor de Culto, Ascensão do Valor de Exposição: Com a perda da aura, a arte se desvincula de sua função ritualística e ganha um valor de exposição muito maior. As obras de arte se tornam mais acessíveis às massas, podendo ser vistas em livros, cinemas, museus, etc. Isso democratiza o acesso à arte, tirando-a do domínio exclusivo de elites ou de contextos sagrados.

·        Novas Funções Sociais da Arte:

o   Política: A arte perde sua autonomia ritualística e ganha uma função política. Ela pode ser usada para mobilizar as massas, para propagandear ideias ou para desenvolver uma consciência crítica.

o   Emancipação: A reprodutibilidade técnica, ao destruir a aura, liberta a obra de arte de seu invólucro burguês de "beleza eterna" e "gênio criador", conceitos que para Benjamin servem para manter o status quo. A arte passa a ser um instrumento para a crítica e para a transformação social.

o   Choque e Distração: As novas formas de arte, como o cinema, operam através do choque e da distração, em contraste com a arte aurática que exigia contemplação. A recepção do cinema pelas massas é uma recepção em estado de distração, o que Benjamin vê como uma nova forma de apreensão da realidade, capaz de subverter hábitos e abrir novas perspectivas.

·        Democratização da Arte: A reprodução em massa permite que a arte chegue a um público muito mais amplo, que antes não tinha acesso aos originais. Isso pode ser visto como um passo para a democratização da cultura.

4. A Fotografia e o Cinema como Exemplos

·        Fotografia: Benjamin analisa a fotografia como a primeira forma de arte verdadeiramente nascida da reprodutibilidade técnica. Ela já nasce sem aura no sentido tradicional, pois é sempre uma "cópia" do real.

·        Cinema: O cinema é, para Benjamin, a forma de arte exemplar da era da reprodutibilidade. Ele não tem um "original" no sentido da pintura. Cada exibição é uma reprodução. O filme é intrinsecamente coletivo em sua produção (ator, câmera, diretor, etc.) e em sua recepção (público em massa). O cinema, com sua capacidade de mostrar o imperceptível (câmera lenta, close-up), revela aspectos da realidade que o olho humano não veria, atuando quase como um cirurgião.

 

Ambiguidade e Posicionamento Político

É importante notar que Benjamin não é um crítico nostálgico da perda da aura. Embora reconheça a perda de algo precioso, ele é otimista quanto ao potencial revolucionário da reprodutibilidade técnica para a arte.

Ele contrasta o potencial emancipatório da reprodutibilidade com a "estetização da política" promovida pelo fascismo (que usa as novas tecnologias, como o cinema, para fins de propaganda e controle, transformando a guerra em um espetáculo estético). Para Benjamin, a resposta do comunismo à estetização da política é a politização da arte, ou seja, usar a arte para a conscientização e a transformação social.

 

Em resumo, para Walter Benjamin, a reprodutibilidade técnica marca uma era de ruptura para a arte, deslocando-a de sua base ritualística e aurática para uma nova função política e social, com a capacidade de democratizar o acesso e de promover uma nova forma de percepção crítica das massas.

 

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