Temática do “Nome da Rosa” como ponto de apoio da discussão
Temática do “Nome da Rosa” como ponto de apoio da discussão
Beto
Gonçalves
"O
Nome da Rosa" é, de fato, uma obra riquíssima em intertextualidade, um dos pilares da escrita de Umberto Eco. Ele
constrói o romance como uma espécie de "máquina para gerar interpretações",
usando e reconfigurando uma vasta gama de textos e referências.
Aqui estão
algumas das principais intertextualidades que Umberto Eco utiliza em "O
Nome da Rosa":
1. O Título
em Si: "O Nome da Rosa"
- Referência: O próprio título já é uma grande intertextualidade. Remete à
discussão medieval sobre os universais
(se as coisas são mais importantes que os nomes, ou vice-versa). Há uma
tradição que sugere que, mesmo que as rosas deixem de existir, a
"lembrança do nome da rosa" permanecerá.
- Significado: Eco brinca com a ideia de que o título deve mais confundir o
leitor do que discipliná-lo, abrindo um leque de possibilidades
interpretativas desde o início.
2. Jorge
Luis Borges e a Biblioteca
- Referência: Uma das intertextualidades mais evidentes e celebradas é com o
escritor argentino Jorge Luis
Borges. O personagem Jorge
de Burgos, o bibliotecário cego e temível da abadia, é uma clara
homenagem e referência a Borges, conhecido por seus contos sobre bibliotecas
labirínticas, espelhos e livros.
- Significado: A própria biblioteca da
abadia, com sua estrutura labiríntica e cheia de segredos e
perigos, remete diretamente à Biblioteca
de Babel de Borges, um símbolo do universo e do conhecimento
infinito e inatingível.
3. Arthur
Conan Doyle e o Gênero Policial
- Referência: O protagonista, Guilherme
de Baskerville, é uma clara homenagem a Sherlock Holmes de Arthur Conan Doyle. O sobrenome
"Baskerville" remete a "O Cão dos Baskerville". A
sagacidade, o método dedutivo, a observação minuciosa e a lógica de
Guilherme são características herdadas do famoso detetive.
- Significado: Ao ambientar uma investigação policial em um mosteiro medieval,
Eco subverte e reinterpreta o gênero, adicionando camadas filosóficas,
históricas e semióticas à trama de mistério.
4.
Referências Medievais (Filosofia, Teologia, História)
- Referência: O romance é permeado por discussões e citações de filósofos, teólogos e pensadores
medievais como Aristóteles (especialmente sobre a comédia e o
riso), Tomás de Aquino, Roger Bacon, Duns Scotus, entre outros. A disputa
entre franciscanos e dominicanos, os debates sobre a pobreza apostólica e
a heresia, são temas historicamente precisos da Idade Média.
- Significado: Eco recria o ambiente intelectual da época, tornando o romance um
verdadeiro compêndio do pensamento medieval. Ele usa esses elementos não
apenas como pano de fundo, mas como parte integrante da trama e dos
conflitos.
5.
Manuscritos e a Estratégia do "Manuscrito Encontrado"
- Referência: A narrativa de "O Nome da Rosa" é apresentada como a
tradução de um manuscrito antigo, encontrado e recontextualizado por Eco.
Essa é uma técnica literária clássica, usada em romances históricos e de
mistério.
- Significado: Essa "moldura" narrativa adiciona uma camada de
verossimilhança e ironia, questionando a própria natureza da verdade
histórica e da ficção.
6. A
"Enciclopédia Cultural" de Eco
- Referência: Umberto Eco era um semiólogo e estudioso da cultura, e isso se
reflete em sua escrita. "O Nome da Rosa" é um texto construído a
partir de fragmentos e referências de muitos outros textos, idiomas e
áreas do conhecimento. O narrador Adso, em dado momento, até insinua que o
que ele escreveu é um "imensão acróstico" que não diz e não
repete nada além do que os fragmentos lhe sugeriram.
- Significado: O romance é um convite ao leitor para decifrar essa vasta rede de
referências, tornando a leitura uma experiência interativa e
intelectualmente desafiadora.
Essas são
apenas algumas das muitas intertextualidades presentes em "O Nome da
Rosa". A obra de Eco é um verdadeiro labirinto de referências, um convite
para o leitor explorar e descobrir as múltiplas camadas de sentido que ele
habilmente teceu.
Umberto Eco
realmente nos presenteia com um universo de referências e significados, e
explorar essas intertextualidades é uma das coisas mais fascinantes na leitura
do livro.
O filme
"O Nome da Rosa" narra a história de um monge franciscano, William de
Baskerville, e seu discípulo, Adso de Melk, que são chamados para investigar
uma série de mortes misteriosas em um mosteiro beneditino no século XIV. A
investigação revela segredos obscuros sobre a Igreja, a Inquisição, a luta pelo
poder e a importância do conhecimento.
Contexto
Histórico:
O filme se
passa na Itália, no século XIV, durante a baixa Idade Média, um período de
conflitos religiosos e políticos.
Mistério e
Investigação:
William, um
mestre da investigação e da lógica, é chamado para solucionar o mistério das
mortes, que parecem ser causadas por uma força sobrenatural.
Série de
Mortes:
A
investigação de William e Adso revela uma série de mortes que estão ligadas a
um livro proibido, a "Poética de Aristóteles", que os monges buscam
desesperadamente.
Conflito de
Poder:
O filme
explora o conflito de poder entre diferentes ordens religiosas e a luta pela
hegemonia da Igreja Católica, que tenta controlar o conhecimento e a verdade.
Temas:
O filme
aborda temas como a importância do conhecimento, o poder da Igreja, a
Inquisição, a luta pela liberdade de pensamento e a busca pela verdade.
Personagens
Principais:
William de
Baskerville - Um monge franciscano, intelectual e investigador, que utiliza a
lógica e a razão para desvendar os mistérios do mosteiro.
Adso de
Melk - Um jovem noviço, discípulo de William, que testemunha e participa dos
eventos do mosteiro.
Jorge de
Funes - Um monge cego e bibliotecário, que é o principal antagonista e guarda
obsessivamente o livro proibido.
Desfecho:
A
investigação de William e Adso leva à descoberta de um plano perverso, que
envolve a morte de monges e a destruição de livros, no intuito de controlar o
conhecimento e manter a ordem religiosa.
A relação
intertextual entre o romance "O Nome da Rosa" de Umberto Eco e a
famosa citação de Shakespeare em "Romeu e Julieta" é um dos pontos
mais fascinantes da obra de Eco.
A citação
de Shakespeare, proferida por Julieta, é: "Que há num nome? Aquilo a que
chamamos rosa, sob uma outra designação, teria igual perfume." (Romeu e
Julieta, Ato II, Cena II).
Umberto
Eco, um renomado semiólogo e intelectual, usa essa citação como um dos pilares
conceituais de "O Nome da Rosa". Veja como a intertextualidade se manifesta:
O Título e
o Significado
O próprio
título do romance de Eco já é uma alusão direta à citação de Shakespeare. A
frase completa que encerra o livro de Eco é: "Stat rosa pristina nomine,
nomina nuda tenemus" (A rosa primitiva permanece apenas no nome; possuímos
apenas os nomes nus). Essa frase latina, que Eco apresenta como um verso de um
monge medieval (que ele posteriormente revelou ser um verso que ele mesmo
criou), dialoga diretamente com a ideia de Shakespeare.
* Shakespeare: A essência (o perfume da rosa)
é mais importante que o nome. O nome é uma convenção, uma etiqueta que não
altera a natureza intrínseca da coisa.
* Eco: A frase de Eco sugere uma inversão ou
uma melancólica constatação. No final, quando a coisa em si (a rosa, o mundo
medieval, a verdade) se desfaz, o que resta é apenas o nome, o signo. A
memória, a história, o conhecimento são transmitidos através dos nomes e das
palavras, mesmo que a realidade à qual eles se referem possa ter desaparecido
ou ser inalcançável.
A Busca pelo
Conhecimento e a Natureza dos Signos
"O
Nome da Rosa" é um romance policial ambientado em um mosteiro medieval,
onde o frade Guilherme de Baskerville (um nome que já remete a Sherlock Holmes
e ao seu criador, Arthur Conan Doyle, reforçando a intertextualidade) investiga
uma série de assassinatos. A trama é permeada por discussões filosóficas e
teológicas sobre:
* A natureza da verdade: Os personagens
debatem se a verdade pode ser alcançada, se é única ou múltipla, e como a linguagem e os signos (nomes)
influenciam nossa percepção dela.
* A nominalismo versus realismo: Uma das
grandes discussões medievais era se os universais (conceitos como
"homem" ou "rosa") existiam como realidades independentes
(realismo) ou eram apenas nomes, convenções linguísticas (nominalismo). A
citação de Shakespeare, em seu contexto, se inclina para o nominalismo. Eco, ao
longo do romance, explora as implicações dessa perspectiva.
* A biblioteca como labirinto: A biblioteca do
mosteiro, um labirinto onde o conhecimento é guardado e escondido, simboliza a
complexidade da interpretação e a dificuldade de acesso à "rosa" (a
verdade) em si. Os nomes dos livros e seus conteúdos se tornam cruciais para
desvendar os mistérios.
Metaficção
e Pós-Modernidade
Umberto Eco
era um mestre da metaficção, e "O Nome da Rosa" é um exemplo claro
disso. O romance brinca com a ideia de ser um "manuscrito
encontrado", questionando a própria autoria e a autenticidade do texto.
Essa estratégia, juntamente com a densidade de referências intertextuais, faz
com que a obra se posicione firmemente no contexto da literatura pós-moderna,
onde a intertextualidade não é apenas uma referência, mas um elemento
estruturante que convida o leitor a uma reflexão sobre a natureza da linguagem,
da história e do conhecimento.
Em suma, a
citação de Shakespeare serve a Umberto Eco para:
* Dar um título enigmático e provocador ao seu
romance.
* Explorar temas filosóficos profundos sobre a
relação entre a palavra (nome) e a coisa (rosa), a verdade e a interpretação.
* Reforçar a natureza labiríntica do
conhecimento e a dificuldade de se apreender a realidade em sua essência.
É uma
homenagem, uma reflexão e um ponto de partida para a complexa rede de
significados que Eco tece em sua obra-prima.
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