Palestra: "O impacto da intertextualidade no leitor e na cultura".
Evento: XXII CONGRESSO BRASILEIRO DE POETAS TROVADORES
Local: Paquetá, RJ, 03 a 06/JUL/2025.
Título
da comunicação:
O impacto da intertextualidade no leitor e na cultura.
Tópicos: Relevância e Efeitos.
Histórias de caso: A história da maçã, Homofonia.
Data
e hora: 05
JUL 2025; 13:30h
Comunicador: Beto Vasco Gonçalves
Temática:
Filosofia/Epistemologia (Teoria do Conhecimento)/Filosofia
da Linguagem/Linguística Textual/Teoria da Literatura/Análise do Discurso/Ideologia/Dialogismo/Polifonia
1.
Intertextualidade e alusão a maçãs
A
maçã mordida da Apple pode ser considerada um sucesso instantâneo. Rob Janoff
conseguiu fazer, em 1977, aquilo que muitas empresas demoram anos para fazer e
consolidar: um logotipo simples e indissociável da marca, uma das marcas mais
valiosas do mundo — sem falar da construção da imagem de marca jovem e
inovadora geralmente atribuída à Apple.
Essa
abordagem ressalta como um objeto tão aparentemente simples pode ser
ressignificado de inúmeras maneiras, conectando obras históricas, mitológicas e
até mesmo referências à cultura pop, como a própria identidade visual da Apple
Inc., símbolo de inovação e design.
As
maçãs aparecem como símbolos ricos e polissêmicos em diversas culturas e
contextos, fazendo com que sejam empregadas de forma intertextual em muitas
obras.
a. A maçã proibida do Éden:
Apesar de a narrativa bíblica não definir
explicitamente o fruto da árvore do conhecimento, a tradição popular consolidou
a imagem da maçã como o símbolo da tentação, do saber proibido e da queda do
homem, criando uma rede de referências que dialoga com temas universais de
transgressão e descoberta.
b. A maçã de Newton:
A famosa história – ainda que cercada de
lendas – em que uma maçã supostamente cai e inspira Isaac Newton a formular as
leis da gravidade tornou-se uma metáfora intertextual para o “momento ah-ha” da
descoberta. Textos que abordam inovação, ciência e a curiosidade humana
frequentemente recorrem a essa imagem para sublinhar o poder das ideias que
mudam o mundo.
c.
A
maçã (pomo) da discórdia:
Na mitologia, a deusa grega da discórdia,
Eris, lança uma maçã dourada com a inscrição “para a mais bela”, sem convidar
ninguém. Essa ação, que desencadeia uma série de disputas entre as deusas e
acaba por precipitar a Guerra de Troia, é uma alusão intertextual amplamente
utilizada para representar o início de conflitos e rivalidades, simbolizando como
pequenas provocações podem gerar grandes consequências.
d. A maçã envenenada de
Branca de Neve:
No conto dos Irmãos Grimm, a maçã que
simboliza tanto a tentação quanto o perigo atua como instrumento central da
narrativa. Essa imagem se difundiu em múltiplas adaptações e paródias, sendo empregada
para explorar temas de engano, dualidade do bem e do mal, bem como para brincar
com a ideia de aparência versus essência.
Essas alusões evidenciam a capacidade da
maçã de transitar entre diferentes significados e contextos, tornando-a uma
ferramenta poderosa na construção de diálogos intertextuais que enriquecem o
sentido dos textos e estimulam reflexões sobre temas universais
Além desses exemplos
clássicos, vale notar que a intertextualidade também se manifesta de forma
lúdica e crítica em referências contemporâneas.
Homofonia e jogos de palavras com frases em
Francês:
·
Paris est métropole /pa.ʁi
ɛs me.tʁɔ.pɔl/ (Paris é uma metrópole)
·
L'ours est maître au pôle /luʁs ɛs mɛtʁ o po.l/ (O urso é mestre no polo)
·
Elle aimait trop Paul /ɛl ɛ.mɛ tʁo po.l/ (Ela amava demais o Paul)
Note que, ao serem pronunciadas, a sonoridade de
"est métropole", "est maître au pôle" e "aimait trop
Paul" se aproxima muito, a ponto de poderem ser confundidas fora de um
contexto claro.
Podemos explorar com mais
profundidade como esses símbolos evoluíram em diferentes períodos históricos ou
como outros elementos naturais têm sido empregados intertextualmente na
literatura e na arte.
2.
Breve
panorama histórico - Autores e obras que
marcaram o uso da intertextualidade.
Estudos de caso
a) A maçã da Apple
b) “A Moreninha”, de Joaquim Manoel de
Macedo
c) Bandeira do Brasil
d) “Abertura 1812” de Piotr Ilitch
Tchaikovsky
e) Grafites latrinários
f) “Grande Fantasia Triunfal do Hino
Nacional Brasileiro”, de Louis Moreau
Gottschalk
g) Homofonia
h) “O Nome da Rosa”, de Umberto Eco
i) “Rima VII”, de Gustavo Adolfo Bécquer
j) Simbologia da pintura, imagem do
Perpétuo Socorro
k) “O Anel do Nibelungo”, Richard Wagner
l) “Pedro e o Lobo”, de Prokofiev.
3.
Texto,
subtexto, textualidade, Intertextualidade:
Texto é uma produção, verbal ou não
verbal, que se constitui com algum código, no intuito de comunicar algo a
alguém, em determinado tempo e espaço. Sua definição ampla se deve ao fato de
também abranger diversos formatos.
Subtexto é o significado implícito, não
dito ou subentendido que reside por baixo
da superfície do que é explicitamente comunicado. É a mensagem "nas
entrelinhas", que o receptor (leitor, ouvinte, espectador) precisa inferir
através de pistas e contextos, e que muitas vezes revela as verdadeiras
intenções, sentimentos, motivações ou pensamentos do emissor.
Entendendo
a Definição:
·
O que não é dito, mas é compreendido: Enquanto o texto
é o que está diretamente expresso (as palavras faladas ou escritas, as ações
visíveis), o subtexto é o que não está manifesto, mas é percebido.
·
Camada de profundidade: O subtexto adiciona camadas de
significado e complexidade a uma comunicação. Em vez de ser direto e óbvio, ele
exige que o receptor "leia nas entrelinhas" ou interprete o que está
por trás do que é superficial.
·
Revelação de verdades: Frequentemente, o subtexto revela
verdades mais profundas sobre os personagens (em ficção), as relações ou as
situações do que o diálogo ou a narrativa direta. Pode expor emoções
reprimidas, segundas intenções, conflitos internos ou o verdadeiro estado de
uma relação.
·
Pistas para a interpretação: O subtexto é transmitido através de uma
variedade de pistas, como:
o Tom de voz: A maneira como algo é dito (sarcasmo,
ironia, raiva contida).
o Linguagem corporal: Expressões faciais, gestos, postura,
contato visual.
o Contexto da situação: Onde e quando a comunicação ocorre, o
histórico entre as pessoas envolvidas.
o Ações e inações: O que um personagem faz ou deixa de
fazer, que contradiz ou complementa o que ele diz.
o Pausas e silêncios: O que não é dito pode ser tão ou mais
significativo do que o que é dito.
- Exemplos de Subtexto:
·
No dia a dia:
o Uma pessoa diz "Estou bem" com
um tom de voz arrastado e um olhar baixo após uma discussão. O subtexto é:
"Não estou bem, estou chateada/triste."
o Quando alguém pergunta "Você está
com frio?" e a pessoa responde "Não, estou confortável.",
enquanto treme visivelmente e se abraça. O subtexto é: "Sim, estou com
muito frio, mas não quero incomodar ou pedir ajuda."
·
Na literatura e no cinema:
o Dois personagens que se odeiam trocam
diálogos polidos, mas seus olhares de desprezo e a tensão entre eles revelam o
subtexto de inimizade.
o Um personagem que sempre evita um
determinado tópico pode ter um subtexto de trauma ou culpa associado a ele.
o No filme O Poderoso Chefão,
as conversas sobre "negócios da família" frequentemente têm o
subtexto de atividades criminosas e violência.
O
subtexto é uma ferramenta poderosa para criadores de conteúdo (escritores,
roteiristas, diretores, atores) para adicionar profundidade e realismo às suas
obras, espelhando a complexidade das interações humanas na vida real. Para o
público, reconhecer o subtexto enriquece a compreensão e a apreciação da obra.
·
Textualidade é um conjunto de características que tornam um texto de fato um
texto e não apenas um aglomerado de frases. A textualidade é formada por critérios semânticos (coesão e
coerência) e critérios pragmáticos
(intencionalidade, aceitabilidade, situacionalidade, informatividade e
intertextualidade).
Intertexto, ou intertextualidade, é um fenômeno presente em diversas formas de
comunicação (literatura, música, cinema, publicidade, etc.) que se refere à relação que um texto estabelece com
outro(s) texto(s) pré-existente(s). É como se os textos
"conversassem" entre si, influenciando-se mutuamente. Na teoria literária, tradicionalmente se
assume que ao ler uma palavra, busca-se um significado inerente à obra. No
entanto, as abordagens contemporâneas modificaram essa perspectiva, sugerindo
que os textos literários são construídos a partir de sistemas, códigos e
tradições estabelecidos por obras anteriores, como filmes, músicas, arte e
cultura em geral.
Entendendo a Definição:
·
Diálogo entre textos: A intertextualidade cria uma ponte, um diálogo
entre diferentes obras. Essa conexão pode ser explícita, quando um texto
menciona ou cita diretamente outro, ou implícita, através de alusões,
semelhanças de estilo, temática, estrutura ou ideias.
·
Construção de significado: O significado de um texto pode ser ampliado,
modificado ou reinterpretado a partir da sua relação com outros textos. Para o
leitor, reconhecer um intertexto enriquece a experiência interpretativa e pode
gerar novos significados e camadas de sentido.
·
Conhecimento prévio: Muitas vezes, a identificação do intertexto
depende da visão de mundo e “cultura” do leitor. Quanto mais referências o
leitor tiver, mais facilmente ele reconhecerá as conexões.
·
Intenção do autor: A intertextualidade pode ser uma escolha
consciente do autor para homenagear, criticar, parodiar ou dialogar com obras
anteriores.
No Dicionário Aurélio,
intertextualidade refere-se à relação entre textos, onde um texto faz
referência ou se inspira em outro, seja de forma explícita ou implícita. É
a sobreposição de um texto a outro, ou a absorção e transformação de múltiplos
textos na elaboração de um novo.
Julia Kristeva, uma
semiótica e filósofa franco-búlgara introduziu
o termo "intertextualidade" em linguística na década de 1960. Em sua
obra, Kristeva rompeu com a visão tradicional de influência do autor e das
fontes textuais, defendendo que todos os sistemas de significação são
constituídos pela transformação de sistemas anteriores.
Resumindo
o Conceito: Chamamos de intertextualidade o “diálogo” que
ocorre entre dois textos diferentes, quando um faz referência a outro
que já existia, inspirando-se em sua forma ou mensagem para criar um novo
discurso de modo explícito (mais
facilmente percebida) ou implícito (menos
facilmente percebida).
4.
Intertextualidade:
Tipificação
·
Citação: Reprodução exata ou quase exata de
um trecho de outro texto, geralmente entre aspas e com a devida referência ao
autor original.
o
Exemplo: Um trabalho acadêmico que cita um trecho de um livro com a indicação da
fonte.
·
Alusão/Referência: Uma menção ou insinuação sutil a um
texto, personagem, evento ou ideia conhecida, sem citá-los diretamente. Depende
do conhecimento do leitor para ser identificada.
o
Exemplo: "Ele parecia um Dom Quixote moderno, lutando contra moinhos de
vento." (Alusão à obra de Cervantes).
·
Paródia: Recriação de um texto já existente
com o objetivo de gerar humor, crítica ou ironia, mantendo a estrutura ou
estilo do texto original, mas alterando seu sentido.
o
Exemplo: Uma música que reescreve a letra de outra música famosa com um tom
satírico.
·
Paráfrase: Reescrever um texto com outras
palavras, mas mantendo o sentido original. O objetivo é geralmente simplificar
ou explicar uma ideia.
o
Exemplo: Um resumo de um capítulo de um livro.
·
Epígrafe: Uma frase, citação ou trecho de
outro texto colocado no início de uma obra (livro, capítulo, artigo) para
introduzir um tema, dar um tom ou servir de inspiração.
o
Exemplo: Uma citação filosófica no começo de um romance.
·
Esqueumorfismo: A etimologia de
"esqueumorfismo" vem do grego "skeuos" (σκεῦος), que
significa "vaso" ou "ferramenta", e "morphê"
(μορφή), que significa "forma". Combinadas, essas palavras
indicam a imitação ou reprodução da forma de um objeto físico (no caso, um vaso
ou ferramenta) em uma interface digital ou outro elemento derivado. É definido como “o termo técnico para incorporar
ideias antigas e familiares em novas tecnologias, mesmo que elas não desempenhem
mais um papel funcional”, segundo Donald Norman, em O Design do Dia a Dia.
·
Pastiche: Imitação
do estilo de um autor ou gênero literário, sem a intenção de sátira, mas sim de
homenagem ou exercício estilístico.
·
Bricolagem: A
"colagem" de fragmentos de diferentes textos para criar uma nova
obra, comum em músicas, artes plásticas e colagens digitais.
A intertextualidade é um recurso riquíssimo na construção de sentidos,
mostrando como o conhecimento e a cultura são constantemente construídos e
reconstruídos através do diálogo entre as diversas produções humanas.
5. Relevância e Efeitos:
Discutindo o impacto da intertextualidade no leitor e na cultura.
A
intertextualidade pode ocorrer
entre gêneros discursivos iguais ou até
diferentes. Por
exemplo, quando um poema faz alusão a outro poema, a intertextualidade ocorreu
entre dois gêneros discursivos iguais.
No
entanto, se uma canção faz alusão a um romance ou então se um desenho animado
faz alusão a uma pintura, dizemos que houve intertextualidade entre dois
gêneros discursivos diferentes.
Exemplos de intertextualidade em linguagem não verbal: não
utiliza a fala e nem a escrita. Ao invés disso, usa imagens e símbolos para comunicar algo.
É o caso de pinturas, esculturas, desenhos, entre outras formas de expressão:
Legenda: Quadro à esquerda, a “Mona Lisa”, pintado por Leonardo da Vinci
(1503). O quadro à direita é uma releitura da Mona Lisa, uma paródia que
mostra uma versão atual da Mona Lisa tirando um autorretrato com o celular.
À esquerda, capa do livro “As aventuras do avião vermelho” escrito por
Érico Veríssimo em 1936. A edição foi ilustrada por Eva Furnari e publicada em
2003. À direita, um pôster da
animação “As aventuras do avião vermelho”, de 2014, dirigido por Frederico
Pinto e José Maia, baseado no livro de Érico Veríssimo. Aqui, houve
intertextualidade entre uma prosa (o livro) e uma animação (o filme).
Intertextualidade em músicas:
Chico Buarque, famoso cantor brasileiro, compôs a canção “Iracema voou”, na qual também
há uma personagem chamada Iracema, referência à “Iracema” do livro de José de
Alencar. Aqui, há intertextualidade entre um romance publicado em 1865 e uma
música composta em 1998.
Do mesmo modo, as músicas “Admirável
gado novo”, de Zé Ramalho, e “Admirável chip novo”, de Pitty, foram inspiradas pelo livro “Admirável mundo novo”, de Aldous
Huxley.
Intertextualidade na literatura:
Há jogos de palavras e
paródias que substituem termos em poemas famosos – como a troca de “palmeiras”
por “macieiras” – para criar novas camadas de sentido e ironia.
Canção do exílio, de Gonçalves Dias
“Minha terra tem palmeiras
Onde canta o sabiá,
As aves que aqui gorjeiam
Não gorjeiam como lá.”
Canto de regresso à pátria, de Oswald de Andrade
“Minha terra tem palmares
onde gorjeia o mar
os passarinhos daqui
não cantam como os de lá.”
Europa, França e Bahia, de Carlos Drummond de Andrade
“Meus olhos brasileiros se fecham
saudosos
Minha boca procura a ‘Canção do Exílio’.
Como era mesmo a ‘Canção do Exílio’?
Eu tão esquecido de minha terra...
Ai terra que tem palmeiras
Onde canta o sabiá!”
No poema de Oswald de Andrade, há intertextualidade implícita, já que
recria o poema de Gonçalves Dias por meio de uma paródia. No poema de Drummond,
há intertextualidade explícita ao usar uma paráfrase para se referir ao mesmo
poema de Gonçalves Dias.
6. Conclusão: Pontos principais e
abertura para perguntas.
Essa
abordagem ressalta como um objeto tão aparentemente simples pode ser
ressignificado de inúmeras maneiras, conectando obras históricas, mitológicas e
até mesmo referências à cultura pop, como a própria identidade visual da Apple,
símbolo de inovação e design.
Essas
alusões evidenciam a capacidade da maçã de transitar entre diferentes significados
e contextos, tornando-a uma ferramenta poderosa na construção de diálogos
intertextuais que enriquecem o sentido dos textos e estimulam reflexões sobre
temas universais.
A intertextualidade, então, é o “diálogo” que ocorre entre dois textos
diferentes, quando
um faz referência a outro que já existia, inspirando-se em sua forma ou
mensagem para criar um novo discurso de
modo explícito (mais facilmente percebida) ou implícito (menos facilmente
percebida).
Podemos
explorar com mais profundidade como esses símbolos evoluíram em diferentes
períodos históricos ou como outros elementos naturais têm sido empregados
intertextualmente na literatura e na arte.
Referências:
·
https://youtu.be/fjRtwdCvVFc
·
https://youtu.be/hJ4_gmE37oI?si=r2JjEYFkykRlrbUq (Intertextuality) + authors)
·
(https://www.portugues.com.br/redacao/texto.html)
·
https://youtu.be/fjRtwdCvVFc?si=pmL7GUeQhIEN0bV7 esqueumorfismo
·
Sentido
literal e sentido figurado – o uso da conotação e da denotação na construção
dos sentidos.
Assunto
dos minicursos online pelo Google Sala de Aula (Google Classroom/Google Meeting):
Horário a combinar.
(Mediação: Beto Vasco
Gonçalves).
09 de
julho de 2025: “Intertextualidade –
Conceituação e tipologia”.
16 de
julho de 2025:
“Intertextualidade na música – Tchaikovsky, Wagner, Gottschalk”.
23 de
julho de 2025:
“Macedo, Bécquer, Umberto Eco –Intertextualidade na Literatura”.
30 de
julho de 2025: “Obras
dos teóricos da Linguística recomendadas
para este estudo”.






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