Lógica, dilema

Lógica, dilema

Um dilema na lógica (e na retórica) é um tipo de argumento ou situação que apresenta ao menos duas alternativas, cada uma delas levando a uma conclusão geralmente indesejável ou igualmente difícil. A essência do dilema é que a escolha entre as opções parece levar a um resultado problemático de qualquer forma.

Em sua forma lógica mais comum, um dilema é um argumento que pode ser construído como um silogismo hipotético-disjuntivo. Isso significa que ele combina elementos de um silogismo hipotético (que usa condicionais "se... então...") e uma disjunção (que usa "ou").

Estrutura Lógica de um Dilema

Um dilema clássico (também conhecido como dilema construtivo) geralmente tem a seguinte forma:

1.    Premissa Disjuntiva: Uma afirmação que apresenta duas alternativas (conectadas por "ou").

o   Exemplo: "Ou faremos X, ou faremos Y."

2.    Premissas Condicionais (ou Hipotéticas): Duas afirmações que mostram as consequências de cada alternativa.

o   Exemplo 1: "Se fizermos X, então Z acontecerá."

o   Exemplo 2: "Se fizermos Y, então Z (ou W, algo igualmente indesejável) acontecerá."

3.    Conclusão: A conclusão de que a consequência indesejável (Z ou W) é inevitável.

o   Exemplo: "Portanto, Z (ou W) acontecerá de qualquer forma."

Forma Simbólica:

·        (PQ) - (Ou P é verdadeiro, ou Q é verdadeiro)

·        (P→R) - (Se P é verdadeiro, então R é verdadeiro)

·        (Q→R) - (Se Q é verdadeiro, então R é verdadeiro)

·        R - (Portanto, R é verdadeiro)

Ou, se as consequências forem diferentes, mas igualmente indesejáveis:

·        (PQ)

·        (P→R)

·        (Q→S)

·        (RS) - (Portanto, ou R ou S é verdadeiro, e ambos são maus resultados)


Exemplo Clássico de Dilema

Um exemplo histórico famoso é o dilema atribuído a Protágoras e Evatlo (ou Euathlus), um caso jurídico da Grécia Antiga:

Protágoras, um sofista, ensinava retórica a Evatlo sob a condição de que Evatlo só pagaria a segunda metade da taxa quando ganhasse seu primeiro caso no tribunal. Evatlo, porém, nunca pegava um caso. Cansado de esperar, Protágoras processou Evatlo.

Protágoras argumentou:

·        "Se Evatlo ganhar este caso, ele terá que me pagar (pelo nosso acordo original, já que ele ganhou seu primeiro caso).

·        Se Evatlo perder este caso, ele terá que me pagar (por decisão do tribunal).

·        Evatlo ou ganhará ou perderá este caso.

·        Portanto, Evatlo terá que me pagar."

Evatlo, que aprendeu bem com Protágoras, contra-argumentou com um dilema inverso:

·        "Se eu ganhar este caso, não terei que pagar Protágoras (por decisão do tribunal).

·        Se eu perder este caso, não terei que pagar Protágoras (pelo nosso acordo original, já que não ganhei meu primeiro caso).

·        Eu ou ganharei ou perderei este caso.

·        Portanto, não terei que pagar Protágoras."

Este é um exemplo perfeito de como um dilema pode ser usado em um debate, mostrando que, dependendo da perspectiva, a mesma situação pode levar a conclusões opostas e igualmente difíceis de refutar sem questionar as premissas.


Como "Escapar" de um Dilema

Existem algumas formas clássicas de tentar refutar um dilema, embora nem sempre sejam fáceis:

1.    "Pegar o Dilema pelos Chifres" (Negar uma das condicionais): Atacar uma das premissas condicionais, mostrando que a consequência não se segue necessariamente da alternativa.

o   No caso de Protágoras: Evatlo poderia tentar argumentar que mesmo que ele ganhe o caso, o acordo original não o obriga a pagar, ou que a decisão do tribunal não se aplica ao acordo.

2.    "Fugir entre os Chifres" (Negar a disjunção): Mostrar que existem outras alternativas além das duas apresentadas.

o   Exemplo: "Não é verdade que faremos apenas X ou Y; há uma terceira opção Z."

3.    "Contra-Dilema" (Construir um dilema oposto): Apresentar um novo dilema que, usando as mesmas (ou similares) premissas, leva a uma conclusão oposta ou igualmente indesejável para quem propôs o dilema original (como Evatlo fez com Protágoras).

Em resumo, um dilema é uma ferramenta lógica poderosa que expõe escolhas difíceis e consequências desafiadoras, sendo amplamente utilizado tanto na argumentação filosófica quanto no dia a dia.

 

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