"Rima VII", de Gustavo Adolfo Bécquer

Rima VII,  de Gustavo Adolfo Bécquer 

 Del salón en el ángulo oscuro,                 1

de su dueño tal vez olvidada,

silenciosa y cubierta de polvo

veíase el arpa.

¡Cuánta nota dormía en sus cuerdas,        5

como el pájaro duerme en las ramas,

esperando la mano de nieve

que sabe arrancarlas!

¡Ay! –pensé–. ¡Cuántas veces el genio

así duerme en el fondo del alma,             10

y una voz, como Lázaro, espera

que le diga: «Levántate y anda!».

 

Rima VII,   de Gustavo Adolfo Bécquer

 Num canto escuro do salão,                       1

Abandonada, talvez por seu dono,

silenciosa e coberta de poeira,

lá estava a harpa.

 

Quanta nota dormia em suas cordas,        5

como o pássaro dorme nas ramas,

esperando a mão de neve

que sabe arrancá-las!

 

Ah, - pensei - Quantas vezes o gênio,

assim, dorme no fundo da alma,             10

e, como Lázaro, espera uma voz

que lhe diga: «Levanta-te e anda!»

1) Resumo
Este é um poema emocional com conteúdo principalmente metapoético. O sujeito lírico descreve uma harpa abandonada em local pouco frequentado. Na segunda nota, o sujeito lírico entra no assunto e lamenta que esta harpa não sirva para o que foi feita: criar música e encantar ouvintes em potencial. Ela espera uma pessoa com sensibilidade e habilidade suficientes para extrair dela as melhores melodias. Agora é como um pássaro adormecido em um galho: não canta. Na terceira estrofe, ele identifica a harpa com o gênio criativo. Dorme nas profundezas do ser, sem criar beleza ou se desenvolver. Ele espera um pequeno milagre, como o que Jesus fez com Lázaro, que o reviveu após sua morte,  despertando-o para começar a viver plenamente.
2) Temas do poema
Os temas mais importantes levantados pelo poema são:
- Expressão de lamento porque o gênio individual não desperta e o indivíduo não pode desenvolver suas melhores qualidades.
- Querer que o gênio criativo da pessoa  desperte e desenvolva sua plenitude criativa.
3) Seções temáticas
O poema tem três seções temáticas muito marcadas, pois coincidem com as estrofes:
a) A primeira é aquela constituída pela primeira estrofe (vv. 1-4). Ela contém uma descrição de um instrumento musical, a harpa. Ela é esquecida e perdida em um lugar remoto que não é muito frequentado.
b) A segunda seção é composta pela segunda estrofe (vv. 5-8). Lamenta que um instrumento tão nobre e belo não seja usado por uma mão hábil para criar música, ou seja, beleza e prazer estético.
c) A terceira seção é a última estrofe (vv. 9-12). O sujeito lírico identifica essa harpa com o gênio criativo de uma pessoa, adormecido nas profundezas da alma.  Por isso é preciso um pequeno milagre para que o gênio desperte e se desenvolva.
4) Análise métrica e de rima
Os doze versos do poema são agrupados em três estrofes de quatro versos. Os três primeiros versos de cada estrofe são hendecassílabos (11 sílabas). O último é heptassilábico (7 sílabas), exceto na última estrofe,  também  hendecassílabo. Em todas as estrofes os versos pares rimam em assonante (á-a). Os ímpares são livres. Estamos, portanto, diante de uma silva romanceada. Este tipo de estrofe é muito comum em Bécquer. Existem poucos casos de uso antes dele na poesia castelhana. Ao combinar a rima do romance, típica da poesia tradicional, popular, anônima e coletiva, com a medida dos versos (11 e 7 sílabas) típica da poesia culta italiana, com a marca de Garcilaso, surge um belo poema. É cadenciado, musical, com um ritmo suave e perfeito.
5) Comentário estilístico
O poema mostra uma deliciosa harmonia entre simplicidade e profundidade, entre transparência significativa e profundidade. Começa com a descrição de um instrumento musical, que acaba sendo uma metáfora para o gênio criativo que muitas pessoas têm dentro de si.
Na primeira estrofe o hipérbato profundo que cobre toda a estrofe é impressionante. A palavra-chave, "harpa", está no final do verso. O abandono da harpa é lindamente expresso pela expressão "abandonada, talvez, por seu dono".
Na segunda estrofe, o sujeito lírico toma a palavra: toda a estrofe é uma exclamação. Expressa o desagrado de que ninguém usa aquela harpa para criar belas melodias. Está lá, esquecida, como uma ave adormecida no galho de uma árvore.  A metáfora "mão de neve" (v. 7) expressa que somente uma pessoa sensível e talentosa pode extrair uma melodia da harpa.
Na última estrofe, o sujeito lírico é visto na exclamação retórica que a abre e no verbo na primeira pessoa. Agora o termo imaginário da metáfora é identificado: gênio, isto é, talento artístico. Muitas vezes «dorme no íntimo da sua alma» (v. 10), isto é, esquecido, moribundo, indefeso. Ela está esperando o chamado da pessoa, metonimizada em "uma voz", que a despertará e a incitará a viver. O símile muito elíptico "como Lázaro" refere-se à passagem bíblica em que Jesus ressuscita um homem morto. Em outras palavras, é preciso um pequeno milagre para o gênio despertar e viver.  O epifonema que fecha o poema dá ainda mais drama e nos dá a chave para a leitura: todos nós temos algo grande dentro de nós, mas só vai ganhar vida se nós o acordarmos e fizermos um pequeno milagre com ele.
Essa rima vem do primeiro bloco, de acordo com o arranjo temático clássico de seus poemas. Neles o poeta reflete sobre a natureza da poesia, como ela surge, como se desenvolve, seus requisitos formais, etc.
O espírito romântico é muito bem apreciado na subjetividade, no uso de elementos da natureza para expressar seu conteúdo (o pássaro adormecido no galho, por exemplo), na predominância de elementos emocionais sobre outros e em uma liberdade métrica moderada. A subjetividade do poema é percebida, entre outros detalhes, por meio de pronomes e verbos conjugados na primeira pessoa, como pode ser visto bem na última frase do poema: "Ah,” pensei: "Quantas vezes o gênio ...!" (vv. 9 e segs.). Nesse sentido esta última frase do poema, entre pontos de exclamação, forma um epifonema majestoso e dramático e dá a chave interpretativa ao texto: o gênio criativo existe dentro de nós, mas deve ser despertado para que viva e seja produtivo.
6) Contextualização
Gustavo Adolfo Bécquer (Sevilha, 1836 - Madrid, 1870) é o mais alto poeta romântico espanhol e um dos mais influentes da literatura espanhola. Um romântico tardio, ele mal era conhecido como poeta em vida, mas após sua morte seu trabalho vem ganhando relevância, influência e popularidade, aspectos que raramente andam juntos. Suas rimas foram publicadas em um único volume, postumamente, por seus amigos, em 1871.  Em diferentes edições novos poemas foram adicionados, esquecidos em publicações da época com pequena circulação. A atividade em prosa de Bécquer é de grande qualidade e relevância. Suas Lendas coletam textos em prosa, de extensão moderada, nos quais intrigas, mistérios, aventuras e o sobrenatural são combinados para oferecer contos maravilhosos da atmosfera medieval, na maioria dos casos.
7) Interpretação e avaliação
Bécquer é um excelente poeta que soube transmitir emoções em uma poesia delicada, íntima e transparente. Sua poesia é inspirada na poesia popular andaluza e na poesia romântica alemã (especialmente pelo poeta Heine). A poesia de Bécquer é muito subjetiva, romântica, mas muito refinada e contida. As emoções passam por um filtro de seleção para eliminar exageros retóricos e declarações grandiloquentes e altissonantes. O manejo da natureza como matéria poética é outro ponto de especial interesse: Bécquer recorre a elementos naturais para expressar suas emoções (neste caso, a existência de gênio criativo em muitos homens).
A leitura do poema não deixa o leitor indiferente, pois o emociona e provoca nele um sentimento de empatia pelo assunto. É uma pena que o talento criativo de uma pessoa não receba fôlego de vida suficiente para se desenvolver adequadamente.
A natureza metapoética do texto inclui uma profunda reflexão sobre a natureza da arte e seu desenvolvimento. É apropriado dizer que A rima VII é um exercício metapoético que surpreende com sua simplicidade e profundidade.

Apud:   Simón Valcárcel Martínez

Doctor en Filología Española y Catedrático de Enseñanza Secundaria de Lengua Castellana y Literatura. En este blog se puede encontrar: - Filología: artículos y monografías sobre temas y autores de la literatura española. - Didáctica de la Lengua y la Literatura: reflexiones, pautas y sugerencias para mejorar la enseñanza de la lengua y la literatura, dirigidas a maestros y profesores de la materia. - Creación literaria: novelas y cuentos originales del autor, dirigidos especialmente a niños y jóvenes, pero también a adultos. - Actividades de aprendizaje de lengua y literatura: análisis textuales realizados acompañados de propuestas didácticas para mejorar y perfeccionar la competencia comunicativa. 

 

 

 

 

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